GLEYBERSON GOMES
GLEYBERSON GOMES
Gleyberson de Almeida Gomes é natural de Alexandria. É licenciado em História pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) e também músico. Participou de duas Conferências Nacionais de Assistência Social.
Quarta-feira, 30 de Junho de 2010
“CELSO FURTADO MADE IN CHINA”
Um flagrante de contradição
No dia 25 de junho a versão impressa do jornal O Globo publica matéria com título descrito acima: “Celso Furtado made in China”. Dizia a matéria que “com a alta de preços do aço, a Transpetro, subsidiária da Petrobras, importa cada vez mais de países como China e Coréia do Sul. O aço é usado em navios como o Celso Furtado, lançado ontem no Rio.”
O título da matéria é bastante sugestivo. O grande economista brasileiro Celso Furtado era cepalino. A CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe) é um órgão das Nações Unidas que foi criado em 1948 objetivando a cooperação econômica de seus membros. “A Cepal caracterizou-se como uma escola de pensamento especializado no exame das tendências econômicas e sociais de médio e longo prazo dos países latino-americanos [...] preocupava-se com o crescimento aliado ao desenvolvimento e suas ênfases recaíam, ao mesmo tempo, na produção, na sociedade e na observação das diferentes formas de dependências entre os países centrais e os países periféricos”1 Para a Cepal, a âncora do crescimento econômico deveria ser o mercado interno. O país deveria crescer com base no desenvolvimento de sua indústria nacional, e esse crescimento deveria resultar em melhoras sociais para a população.
O título da matéria é sugestivo por que faz um trocadilho muito interessante. Celso Furtado foi um dos maiores expoentes da Cepal e do desenvolvimentismo brasileiro. Influente intelectual, Furtado estava no alicerce do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e na criação da Sudene. E “Celso Furtado” é o nome do navio inaugurado dia 24 de junho no Rio de Janeiro. Mas um navio construído em território nacional, por nome “Celso Furtado”, feito com chapas de aço da China? É essa aparente contradição que O Globo quer explorar.
Aparente porque não é de fato. Primeiro, há 13 anos não era construído um petroleiro no Brasil. No governo do PSDB, a Petrobras optou por encomendar navios e plataformas de petróleo no exterior, em Cingapura. A justificativa era que os preços eram mais competitivos, os navios eram melhores, a indústria nacional estava defasada. A opção de investir na modernização do setor não ocorre em governos de orientação neoliberal. A indústria naval brasileira que chegou a ser uma das maiores do mundo, praticamente desapareceu.
Antes mesmo de ser eleito, o presidente Lula anunciou que a Petrobras iria comprar navios no Brasil e que iria cancelar as encomendas feitas a Cingapura. A crítica na grande mídia – inclusive a Globo – e do PSDB/PFL foi geral. “O Brasil não tem condições de fazer petroleiros”, “o governo vai comprar navios não competitivos e vai prejudicar a Petrobras”, “o Brasil não tem tecnologia para fazer plataformas”, eram algumas das frases ditas. A edição n° 1717 da IstoÉ, de 2002, por exemplo, dizia “o presidente da Petrobras, Francisco Gros, peita Lula para tentar provar que construir plataformas na Ásia é bom para o Brasil.” (grifo meu).
Lula cumpriu a promessa. Lançou o Programa de Modernização da Frota (Promef) investiu pesado na indústria naval, com a modernização do estaleiro de Mauá em Niterói e com a construção de novos, como o de Suape, em Recife. Hoje, 70% dos componentes das plataformas de petróleo da Petrobras são produzidos no país. O Plano de Negócios 2010-2014 da Petrobras prevê que 95% dos seus investimentos serão aplicados no Brasil, o que totaliza 212,3 bilhões de dólares. Em 2002 o setor contava com cerca de 2000 empregados. O Promef já gerol mais de 15 mil empregos diretos, e esse número chegará a 45 mil, uma vez que o “Celso Furtado” lançado no Rio é apenas o segundo de 49 navios previstos para serem construídos em estaleiros nacionais. A indústria naval do Brasil já é hoje a quarta maior do mundo.
Mas por que a Transpetro “importa cada vez mais de países como China e Coréia do Sul” como diz a reportagem de O Globo? Agora vem a segunda contradição da matéria. Petroleiros são fabricados com chapas pesadas de aço. A única indústria no Brasil que fabrica esse tipo de chapa com a espessura requerida é a Usiminas, siderúrgica privatizada no governo Collor. A grande mídia, como se sabe, apoiou abertamente o processo de privatizações ocorrido no país na década de 1990, quando a onda neoliberal atingiu em cheio o Brasil nos governos de Collor à FHC. A Usiminas vem aumentando desde 2009 o preço do aço, quando em setembro do ano passado elevou o preço em 13%. Em abril desse ano, a empresa já havia reajustado o valor do aço entre 11 e 15%, e o próprio portal de O Globo em matéria do dia 24 de junho (um dia antes da matéria aqui comentada) anuncia que “a Usiminas está comunicando a clientes sobre a segunda rodada de aumento de preços em 2010 para todos os seus produtos em aço no mercado interno”2, agora com reajuste de 10,75%.
A matéria ainda afirma que “as vendas de aço no Brasil dispararam 55,3% em maio contra o mesmo mês do ano passado”(grifo meu). Mesmo assim, a reportagem se esforça em justificar o aumento do preço, inclusive dizendo que a alta ocorreu em virtude da ameaça do governo de baixar o imposto de importação do produto. O governo ameaçou faze-lo realmente, mas a ordem foi exatamente oposta, como mostra matéria publicada pelo Estadão no dia 21 de dezembro de 2009, onde o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge afirmava que “todo o aumento do aço é injustificável”, e já apontava como alternativa reduzir o imposto de importação sobre o produto para forçar a baixa dos preços no mercado interno3 – tudo isso, antes das altas de preços de 2010. Como se sabe, o capital não está interessado no desenvolvimento nacional, e sim no lucro; se houver lucro com o desenvolvimento, ótimo, se não...
Conclui-se, com facilidade, portanto, que a matéria de O Globo é flagrantemente contraditória, uma vez que as Organizações Globo historicamente apoiaram as políticas neoliberais dos governos Collor-FHC e nunca foram simpáticas aos governos nacionalistas – Jango e Lula que o digam. Além disso, o jornal distorce um dado já mostrado por ele próprio um dia antes, que era o aumento constante do preço do aço, tornando inviável a compra à Usiminas. Não apenas flagrantemente contraditória, a matéria mostra mais uma vez como o império dos Marinho pratica jornalismo, com intencionalidades muito claras, ao invés da tão citada “imparcialidade” que seus próceres costumam anunciar como sendo sua marca sagrada e indelével.